Direção perigosa

09/12/2016 às 9:13 - Atualizado em 09/12/2016 às 9:13

ilustracaoSão sete horas da matina. Chego à esquina da minha rua para sair na via principal e vejo uma dessas vans gigantescas bloqueando a saída. Avanço e passa um bólido a mais de mil, tirando uma fininha da frente do meu carro que, assustado, se encolhe todo. Com o coração batendo mais forte que o bumbo da Mangueira, a minha Escola de Samba, faço nova tentativa na esperança de o motorista da van se tocar. Então, percebo que no carro só estão os passageiros. Dou uma buzinada (de leve) e ele, um gigante sarado que está na porta da banca, levanta o jornal e vejo a manchete: motorista de van arranca com uma mordida o dedo do motorista que buzinou atrás dele.

O homem então se vira e mostra um dedo (aquele) quase do tamanho do meu braço (tá, exagerei, é do tamanho do meu antebraço) e volta a ler o jornal. Meço a minha vontade de buzinar novamente pelo tamanho do dedão do gigante e deduzo que o melhor é tentar sair por cima da calçada, afinal, o meio-fio nem é tão alto assim. Finalmente, chego e saio triunfalmente. Espero que o trânsito não esteja muito enrolado, porque depois do trevo tenho que pegar a pista da esquerda, sempre congestionada. Depois de séculos (tá bom, foram apenas alguns segundos), respiro fundo, olho para a direita e embora não enxergue nada, pois tem um ônibus ao meu lado, confio nele e vou junto, dividindo os xingamentos dos motoristas que passam chispando. Sigo pelo lado esquerdo, pois logo à frente tenho que entrar novamente à esquerda para fazer um retorno e mantenho a seta ligada, indicando a minha intenção. Olho pelo retrovisor e vejo um carro pilotado por uma mulher. Ela não se conforma em andar atrás de mim e começa a buzinar, acendendo o farol, gesticulando com gestos que não posso descrever na revista Caminhoneiro e numa arrancada ao estilo Fórmula l, emparelha comigo e começa a xingar a minha falecida mãe, minhas irmãs, minha avó, minha mulher, minha filha, minhas sobrinhas, minha médica, minha editora, enfim, todas as mulheres da minha vida. Não se contentando, antes de passar, ela me chama de Carvalho, que nem sei quem é. Vai ver me confundiu com outro motorista …

Quando entro à esquerda, a mulher segue reto com a mão esquerda espalmada mostrando um dedo (aquele) e ao lado dele uma aliança bem bonita, mas que pelo jeito da mulher deve ser falsa. A maluquete vai embora e entro na faixa da esquerda na pista principal. Com atenção no trânsito, cometo o erro primário de parar no sinal vermelho. Será que depois de 60 anos dirigindo ainda não aprendi que o sinal vermelho nem sempre é para ser obedecido? Finjo não ver os gestos obscenos do motorista do carro atrás do meu, apontando para o sinal vermelho e mandando avançar. Logo ele passa acelerando mais que o Felipe Massa e pára na porta de um bar. Então, entendi a pressa do cara, ele deve estar com dor de barriga e procura um banheiro. Está perdoado.

Paro no próximo sinal e vejo um homem armado com um revólver pai d’égua, gritar: ‘perdeu, perdeu’. E não é que o cara estava apontando a arma pra mim? Violentamente, ele abre a porta, me tira do carro e sai rua afora em louca disparada, levando inclusive os meus documentos.

Depois de passar horas na delegacia, esperando a minha vez para dar parte do assalto, pois eu era o número 16, chego à minha casa e o telefone está tocando. Atendo. É o assaltante:

“Pó, cara. Só um muquirana como você pode andar com um carro desses. Não tem ar, direção hidráulica, som, vidros elétricos, airbag e freios ABS. Não dá para vender. Meus fregueses são exigentes. Tô deixando ele no portão da tua casa. Se manca cara e troca essa lata velha. E, ainda por cima, você tá no vermelho no cheque especial e teu cartão de crédito tá cancelado. Fui”.

Homenagem a Henrique Lessa (em memória), ex-caminhoneiro, escritor, poeta e amigo.