CAMINHONEIROS NO YOUTUBE

29/11/2016 às 9:21 - Atualizado em 17/01/2017 às 8:35

Alguns profissionais do volante estão encontrando no YouTube, um meio de  passar informações, mostrar a realidade das estradas e com muita paciência, até ganhar um dinheirinho.  

Pode até não saber o que é, mas com certeza já ouviu falar em Marcos Tenere, Sheila Bellaver, Beto Brasil e Anailê do Jacaré. São caminhoneiros e caminhoneiras que mantêm um canal no YouTube e fazem vídeos sobre problemas e o cotidiano da vida na estrada.

Vlog é a abreviação de videoblog (vídeo + blog). O blog é um espaço onde o autor escreve um texto. No vlog, o que predomina é o vídeo. Ao invés de publicar textos e imagens, o vlogger ou vlogueiro, faz um vídeo sobre um determinado assunto.

“Eu faço vídeos com dicas de estradas e de direção, um pouco de manutenção mecânica em geral”, explica José Alberto de Paula Mendes, responsável pelo Canal Beto Brasil. “Também mostro um pouco de entretenimento e o meu dia a dia na estrada, como a hora do almoço e o próprio preparo na cozinha do caminhão. Levo informações sobre rodovias por onde passo e relatos que acontecem durante a viagem”.

A inspiração para começar a fazer vídeos surgiu de sua própria necessidade. “Em uma das fases de minha vida como caminhoneiro, em que trabalhei com um caminhão Atron 2729, da Mercedes-Benz, senti dificuldade antes do teste, procurei matérias no YouTube sobre o modelo e encontrei pouca coisa. Senti que poderia ter milhares de pessoas, que como eu, buscavam este tipo de material na internet e não encontrava. Resolvi tentar ajudar e comecei a fazer vídeos dando dicas. Hoje, meu primeiro vídeo de dicas com mais de 130.000 visualizações, continua sendo um dos mais buscado entre os youtubers caminhoneiros”.

Beto Brasil

Anailê Santos Goulart, com 26 anos e apenas dois de caminhoneira, mais conhecida como Anailê do Jacaré, que dirige um Scania 73, também está fazendo muito sucesso entre os admiradores dos vlogueiros. “Publico a minha realidade dentro da profissão. Acho bom as pessoas saberem como funciona, assim pensarão bastante antes de entrar”, afirma Anailê que já ultrapassou 4 milhões de visualizações. “Acho legal mostrar às pessoas que mesmo com tantas dificuldades, nunca podemos desistir, temos sempre que lutar, o trabalho te faz ser mais forte”.

Mas toda essa fama, não faz Anailê tirar os pés do chão. “Não me sinto famosa, sou apenas uma pessoa que está sendo reconhecida pelo meu trabalho. Trato todos da mesma maneira que sempre tratei. Na maioria das vezes é bom sim ser reconhecida. As pessoas me respeitam bastante, pedem até para tirar fotos. Eu morro de rir, pois eu realmente não me acostumei com isso. Sou uma pessoa normal”.

Ao volante, ela fala muito. “Explico bem como se dirige um caminhão como o meu”, afirma. “Tenho seguidores que aprenderam a dirigir um ‘Jacaré’ olhando meus vídeos e isso me deixa muito feliz e até gosto do meu apelido na rede: Anailê do Jacaré”.

Anailê do jacaré

Outra “pessoa normal” é Sheila Marchiori, mais conhecida por Sheila Bellaver. Caminhoneira há seis anos, começou na Bellaver Transportes, que lhe abriu as portas e a tornou uma profissional muito respeitada. Atualmente de licença maternidade, esperando seu quarto filho, que deve nascer junto com esta edição, Sheila posta coisas simples do dia a dia da estrada e agora, em sua ausência, seu marido, também caminhoneiro, se encarregará de manter o vlog atualizado.

“Acho que o que chama atenção no meu canal é a historia de vida de como tudo começou, as dificuldades e alegrias que com muita simplicidade, sempre mostro a verdade. Mesmo sendo uma profissão difícil e ingrata, passo sempre um lado muito positivo para meu público, pois, para ver desgraça, eles não precisam me assistir, é só ligar a televisão”, afirma Sheila Marchiori, que, por trabalhar seis anos na Bellaver Transportes, acabou adotando o sobrenome para seu vlog.

Sheila Belver

Mas o “campeão de audiência” entre os vlogueiros é Marcos Valadares Leite, do Vlog 18 Rodas que tem mais de 100 mil inscritos e 2o milhões de visualizações. Morando nos Estados Unidos há 21 anos, em 2009, resolveu fazer dois vídeos para a família ver como eram as estradas e não parou mais. “Publico o dia a dia do meu trabalho. Mostro as estradas, falo da história dos locais por onde passo, mostro os caminhões, falo de logística, etc”, conta Marcos. “Acho que esse interesse vem do público em querer conhecer os EUA, mas de uma maneira que não aparece na televisão, como o interior do país e o cotidiano do povo. O que mais dá audiência são as histórias do povo local e quando mostro caminhões customizados”. O nome Vlog 18 Rodas veio do fato de falar de caminhões e de viagens, que, nos Estados Unidos, possuem em média, 18 rodas.

Marcos Tenere

 

DIFERENTES COMEÇOS

Desde pequeno, Beto Brasil, queria ser caminhoneiro. “Meu irmão me contou uma história sobre caminhoneiro e eu me vi fazendo parte daquela história”, lembra Beto. “Desde aquele dia, decidi o que seria. Vivia nos postos observando os caminhões e até fui confundido com um ladrão quando me pegaram dentro de um deles virando o volante como se estivesse dirigindo”.

Ele dirigiu carros, ônibus, mas um dia teve a chance de trabalhar em um caminhão caçamba fora de estrada em uma mineradora. Foi fazendo cursos, trocando a CNH e hoje dirige uma carreta.  Morador de Palmas, no Tocantins, transporta materiais da Energisa para o programa de eletrificação rural. São postes de concreto, bobinas de fio, transformadores e materiais pequenos utilizados na implantação das redes rurais. Ele roda cerca de 14.000 km por mês.  O grande incentivador da Anailê foi seu marido, também caminhoneiro, que sempre a motivou tirar a carteira categoria E, pensando nas possibilidades futuras. “Não concluí meu ensino superior e as oportunidades são poucas”, lamenta Anailê que dirige seu próprio caminhão, um Scania 110, 73, o “Jacaré”.  E o “Jacaré” é valente. Rodando em Vila Velha, ES, o Scania 110, 73, transporta de tudo um pouco, desde grãos, alimentos, rochas ornamentais, cargas em geral, mas tudo que se transporta dentro de um container. “Como só fico na rota portuária, rodo pouco, cerca de 400 quilômetros por mês”.

Sheila Marchiori não tinha nenhum caminhoneiro na família, apenas a vontade e a determinação. Quando encontrou a Bellaver Transportes, que viu o seu potencial e acreditou nela, tornou-se uma excelente caminhoneira. “A Bellaver me abriu as portas e me ensinou a ser a profissional que sou”, explica a futura mamãe que está de licença maternidade e já tem outros planos. “Em 2017, eu e meu marido William, que também é caminhoneiro, montaremos nossa própria empresa para podermos criar nosso filho na estrada”.  Há 21 anos nos Estados Unidos, Marcos Tenere caiu na estrada por incentivo de um amigo.

“O William disse que iria tirar carteira de caminhão e falou para tirarmos juntos”, lembra. “Não levei fé no começo, mas um dia ele apareceu com o livro para estudarmos para a prova teórica e aqui estou eu pilotando para a Daybreak Express Inc, levando embalagens, cosméticos, remédios, vinhos, hortifrutigranjeiro para todo o país, rodando, em média, 20.000 km por mês.

MULHERES DE FIBRA  

São por causa de mulheres como Sheila Marchiori e Anailê Goulart que o velho tabu de que mulher e estrada não combinam está acabando. “Ser uma mulher nessa profissão masculina já foi um tabu. Hoje é algo muito comum e cada dia mais e mais é possível ver mulheres na estrada, o que é sinal de que o preconceito está diminuindo aos poucos”, diz Sheila, que faz por merecer o respeito. “Eu sou honesta, trabalhadora, saio de casa para batalhar e tenho orgulho de não usar drogas, nem sair fazendo quebra de asa.

Prova disso é meu histórico com as autoridades. Nunca tive problema com policiais e sempre que fui abordada, estava tudo certo comigo e com meu veículo”.  Anailê recebe muitas mensagens de pessoas que se espelham nela e a incentivam a não desistir. “Gosto de mostrar que nós mulheres também podemos nos destacar e ser respeitadas no trabalho”, diz a “dona do Jacaré”. “Para falar a verdade, eu prefiro trabalhar em um ambiente cheio de homens do que de mulheres. Aqui ninguém repara se estou maquiada, na roupa que uso. Trabalhar com muita mulher acho mais complicado (risos). E quanto ao preconceito, aos poucos vamos conquistando cada dia mais nosso espaço com profissionalismo, muita competência e respeito”. E que fique bem claro: as duas estão na estrada para trabalharem como caminhoneiras.

Qualquer outra proposta é e será gentil, mas firmemente recusada. “Recebi um convite para posar para um calendário, mas já recusei”, explica Anailê. “Gosto de tirar mas esse trabalho seriam fotos indecentes. Isso não me convém, não combina comigo, nunca foi meu objetivo despertar esse tipo de atenção. Mesmo sendo bem atrativo pelo fato de pagarem bem, sobretudo na minha condição de estar precisando muito para reformar meu caminhão, prefiro ganhar meu sustento dirigindo”.  Sheila Bellaver também foi sondada para posar para uma revista masculina há três anos. “A proposta foi ótima”, lembra Sheila. “Mas o meu objetivo é vencer na vida pelo trabalho e graças a Deus, já estou encaminhando e realizando os meus sonhos”.

Tanto Anailê quanto Sheila, não se julgam famosas. “Não vejo dessa forma. Tenho muitas amizades Brasil a fora. Ao mesmo tempo, surge muita perseguição de pessoas que não alcançam seus objetivos e tentam diminuir o esforço alheio. Mas sempre tirei de letra tudo isso e por onde passei só deixei amigos. Me orgulho de nunca ter tido problema na estrada”.

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PROFISSIONAIS E RESPONSÁVEIS

Seja atrás do volante, ou atrás das câmeras, esses quatro caminhoneiros mostram que o objetivo é ajudar, levar algo de bom para a categoria, algo de positivo e condenam aqueles que postam vídeos de coisa errada como a perigosa e assassina “quebrada de asa”.  “Dicas e sugestões relacionadas à profissão, além de busca por oportunidades”, são os assuntos que mais atraem meus seguidores”, explica Beto Brasil, que fez um ranking dos vlogueiros mais acessados. “A falta de experiência faz com que mais e mais iniciantes devorem conteúdos relacionados postado no YouTube”.

Beto Brasil explica que sempre teve curiosidade de saber em que posição o youtuber caminhoneiro preferido se encontrava. Foi atrás das informações, um ano de pesquisa, recolhendo dados como, data de criação, quantidades de inscritos e números de visualizações tanto em vídeos quanto em páginas, frequência de postagens e tipos de materiais postados. “Reuni tudo isso em uma tabela que guardo comigo para serem atualizadas a cada mês e o resultado está sendo ótimo”.  Todos eles procuram fixar as câmeras para ficarem com as mãos liberadas e se concentrarem na estrada.

“Tenho todo o cuidado de fixar a câmera, atualmente o meu celular, em pontos estratégicos onde eu tenha um bom ângulo sem precisar mexer enquanto dirijo, explica Beto Brasil. “Tudo é bem calculado e planejado para que, além de um bom vídeo, não coloque vidas, tanto a minha quanto a de quem esta lá fora, em risco e eu possa passar respeito e responsabilidade no trânsito para quem esta me assistindo”.  Marcos Tenere afirma que sempre usa o cinto de segurança. “Primeiro pelo fator segurança, e depois, se não usar, posso levar uma pesada multa, além de advertência na empresa na qual trabalho”.

E toda a audiência desses caminhoneiros, ainda não se transformou em uma verba significativa. O líder, Marcos Tenere, com mais de 120 mil inscritos em seu canal e mais de 20 milhões de visualizações, ganhou do YouTube uma placa comemorativa e recebe mensalmente uma verba que “dá para comprar as câmeras”.  Sheila Bellaver tem um patrocinador que acreditou no seu potencial quando tinha apenas 8 mil inscritos. Hoje, com 58 mil inscritos, ela mantém quatro patrocinadores e está aberta a novas parcerias.

Anailê do Jacaré conseguiu apoio da Embreagex, que forneceu um kit de embreagem novo para seu Scania. A empresa é a mesma que patrocinou algumas equipes da Fórmula Truck. A loja Mundo do Caminhão também tem um acordo com Anailê: quem comprar qualquer peça e falar o nome dela, ganha 5% de desconto que vai sendo contabilizado até que ela possa comprar alguma peça.

“Mas é difícil”, diz a caminhoneira que avisa: se mais alguém quiser ajudá-la, ela retribui com vídeos cada vez mais assistidos.  Beto Brasil continua fazendo seus vídeos, dando dicas sobre a profissão, enquanto aguarda algum patrocinador.

MENSAGENS 

Essa turma que é boa de estrada e de vídeo, sabe melhor do que ninguém o que é a vida de caminhoneiro, e fez questão de deixar uma mensagem para a turma do trecho.

“Busque sempre em Deus os seus objetivos. Confie fielmente Nele e Ele te dará tudo que pedires”, diz Beto Brasil.

“Nesta profissão, quando se trata de início, temos que ser persistentes. Não desista, tenha objetivo, foco e fé que você consegue chegar lá”.  Anailê Santos Goulart, ou Anailê do Jacaré, afirma que a vida é feita de escolhas. “Escolha lutar e vencer. Mesmo que o percurso seja longo e cansativo. O mais difícil é sempre mais prazeroso”, afirma Anailê para quem a vitória ao lado de Deus nunca falha.

Marcos Tenere, do Vlog 18 Rodas, se sente honrado com tanta audiência. “Eles não deixam eu parar”, conta Marcos. “O carinho que eu recebo deles é fenomenal. O retorno positivo, amizade e laços que criamos, são inexplicáveis”.

Sheila Bellaver deixa uma mensagem de agradecimento a todos que a assistem tanto no YouTube quanto na página do site Sheila Bellaver. “Agradeço esse carinho gratuito e repito: não desistam dos seus sonhos por mais impossíveis que pareçam”, diz Sheila. “Se eu que vim de uma família com o pai agricultor e a mãe do lar, consegui chegar até aqui, vocês também conseguirão”. Ela recomenda ainda: não deixem de estudar, pois o estudo e conhecimento é a única coisa nesse mundo altamente competitivo, que ninguém pode roubar de você. “Muito obrigado, um grande abraço e fiquem com Deus”.

Canais:

Anailê do Jacaré – https://www.youtube.com/channel/ UCZMuvor_X3WU-nwsJHlfrdg

Beto Brasil – https://www.youtube.com/channel/ UCKsbo2eYwV_8UTRyzhhyymA 

Canal Vlog18Rodas – https://www.youtube.com/user/vlog18rodas 

Sheila Bellaver – https://www.youtube.com/user/WilianPagode 

 

”As visualizações são apenas do YouTube, porém, os vídeos podem ser acessados pelo Facebook e outros meios. Os números foram apurados até o fechamento desta publicação.”