Crise não é problema. É solução

28/06/2016 às 8:25 - Atualizado em 28/06/2016 às 8:27

Um grande estoque de peças para atender clientes que antes so compravam lonas

Com este pensamento, muito trabalho e disciplina, Geraldo Rufino conseguiu mudar a má fama dos desmanches construindo uma empresa sólida e muito respeitada. 

“O problema da crise é o mesmo da barata”, brinca Geraldo Rufino, presidente da JR Diesel, recicladora automotiva. “As mulheres fogem da barata porque colocaram em suas cabeças que aquilo era um problema. A mulher corre e a barata voa. É a crise”.

Rufino explica que desde que o mundo é mundo, sempre teve crise. E sempre vai ter, pois a crise é necessária. Ela força a mudança, a evolução. Sem crise não há reciclagem. “As pessoas não vivem sem crise. Por mau costume, vendem que crise é um problema. Não é problema, é solução”, diz Rufino. “Se não tivéssemos crise, estaríamos andando com carros com carburador. As crises fazem as mudanças, tiram as pessoas das cadeiras, gera a oportunidade. A crise é só um movimento natural. Aperta em algum ponto e quem descobrir a saída primeiro leva vantagem”.

E foi em meio a uma grande crise que Rufino descobriu um filão que era muito mal explorado: o da reciclagem automotiva, popularmente conhecida como desmanche.

Com muito esforço e economia, Rufino e seus irmãos adquiriram uma perua, depois outra, depois transformaram as duas em um caminhão. Mais trabalho, mais economias e um segundo caminhão.

Quando tudo estava indo muito bem, um acidente envolvendo os dois caminhões colocou à prova o poder de recuperação de Rufino. “Sobraram apenas às peças e os carnês para pagar”, lembra sorrindo o empresário. “Juntamos as peças, compramos mais algumas e com o dinheiro da venda saldamos nossa dívida e mantivemos o nome limpo na praça”. Assim começou a JR Diesel.

Estrutura

Em 30 anos de atividades, um galpão de 300 metros quadrados com paredes de madeira e piso de terra transformou-se em uma área de 15 mil metros quadrados, com mais de 75 mil clientes, 180 funcionários que desmontam 1.000 caminhões por ano e obtém um faturamento de R$ 50 milhões/ano.

“Sempre fui empreendedor. Sempre tive um negócio paralelo trabalhando em outro lugar”, explica Rufino. “Quando você empreende, você tem que ajudar o próximo. Aprendi com a minha mãe que pegava restos na feira e dividia com os vizinhos em vez de criticá-los por não irem. Trabalhar com parente é um prazer. É a sua família. Se você não consegue administrar seus próprios parentes, não tem condição de administrar ninguém. O próximo mais próximo são seus parentes”.

Geraldo Rufino aposta no Brasil, um país de dimensão continental que precisa de caminhões. Se os caminhões rodam, um dia irão precisar de peças e é nesse momento que ele entra em cena. “Entendi que aquilo que as pessoas tratavam como desmanche ou sucata, poderia ser um negócio como qualquer outro. Se fosse tratado de maneira ética, correta, com honestidade”, lembra Rufino, que desde o começo da operação sempre foi muito organizado. Com os filhos, veio a modernidade e a tecnologia. Os filhos se apaixonaram pelo negócio e o desenvolveram ainda mais, com sistemas e diretrizes tornando a operação ágil, segura e eficiente.

Ciente de que tem total responsabilidade por cada uma das 27 mil peças que tem em seu estoque, Rufino não abre a guarda. Só compra veículos em leilões ou de pessoas jurídicas, desde que sejam grandes. “Nem de empresas individuais nós compramos, pois não podemos correr o risco de comprar uma peça e logo depois a empresa fechar e eu não ter como comprovar a origem”, diz o presidente da JR Diesel.

Quando os veículos chegam até a empresa, é dado baixa no Detran conforme a lei determina. Segundo Rufino, não é apenas uma questão de honestidade. É uma questão de inteligência. Se não faz de maneira correta, o custo acaba saindo ainda maior.

As peças são retiradas limpas, inspecionadas, identificadas, etiquetadas e vendidas. 80% das peças são vendidas. Peças de segurança como freios, suspensão, direção, não podem ser vendidas para o usuário final. São vendidas para os fabricantes que fazem a remanufatura (ver matéria nessa edição). E pouca coisa acaba indo para sucata e lixo.

“Temos aproximadamente 19 mil itens, totalizando 27 mil peças”, contabiliza Arthur Rufino, diretor da JR Diesel e filho de Geraldo. “Todas as peças ficam nas prateleiras e com um celular e a identificação por QR Code, é fácil saber qual é a peça, de que veículo veio, quando entrou no estoque e todas as informações necessárias. Nós criamos uma rastreabilidade nas peças de maior valor como motor, portas, tudo que se troca muito”

São 124 peças no caminhão que tem um controle especial de rastreabilidade. A JR tem um engenheiro que controla uma equipe de qualidade para analisar as peças. Ele audita o processo que é feito por uma série de pessoas que avaliam a qualidade das peças.

Quando um caminhão chega, é criada uma identificação, com um código sequencial. Abaixo do código tem a foto do caminhão antes de ser desmontado, a baixa definitiva do Detran, nota fiscal e o código de rastreabilidade que é colocado em todas as peças.

“No setor de qualidade analisamos e dividimos em categorias A, B e C”, explica Arthur Rufino. “Nota C são as peças que o consumidor não pode comprar, ou por que estão em ponto de serem remanufaturadas, ou são de segurança, como freios, direção e suspensão. A letra B é para o consumidor final, sabendo que tem algum detalhe, um amassado, uma imperfeição que pode ser recuperada. E a nota A é a peça em perfeitas condições de uso”.

A JR Diesel oferece grande disponibilidade de peças, bom atendimento e está preocupada em entender o problema do cliente antes de vender a peça. “Temos um preço muito bom, em média 50% do valor da peça nova. A durabilidade varia em termos de peça, utilização, nível de uso”, explica Arthur. “A maioria das peças usadas tem a vantagem de ser originais. Não desmontamos caminhões com mais de 10 anos. A idade média de caminhões é sete anos, a da indústria é 17. Às vezes temos peças que nem a fábrica tem”.

As peças têm garantia de três meses. Se tiver algum problema, a JR dá garantia, isso porque os técnicos sabem quando o cliente usou de maneira errada, ou a peça tinha algo de errado. Nesse caso a troca é feita no ato.

Em duas horas um caminhão está desmontado e em 3,5 horas o ônibus é desmontado.

E a administração tem dado tão certo que a JR cresce todos os dias. “O próprio mercado faz a propaganda, além do nosso histórico de empresa com credibilidade”, diz Geraldo Rufino. “Temos 30 anos de existência e o CPF de quem criou a empresa é o mesmo desde a inauguração. Nunca tivemos nenhum problema”.

Arthur, filho e diretor, diz que a propaganda é espontânea a demanda por peça é maior do que a oferta de peças. “Estamos em vários meios de comunicação, sempre nas editorias de negócios, finanças e empreendedorismo”.

“O negócio é trabalhar correto e muito. O Brasil é muito grande, temos que parar de olhar para baixo e ver o tamanho do Brasil. O Brasil é muito grande e não será meia dúzia de políticos que irá acabar conosco”.

E com a experiência de quem enfrentou 30 anos de crises, Rufino explica que a melhor maneira de enfrentar a crise é sair de manha é ir trabalhar. Ele cita o exemplo do mestre de obras que sai procurando emprego e ao chegar em uma onde necessita apenas de servente, rejeita o emprego. “Quem precisa trabalhar, entra como servente, trabalha e será o melhor servente da obra. Quando a situação melhorar, ele será promovido. Mas primeiro tem que pegar o que para o momento”.

Experiente, Rufino diz que para saltar é preciso, primeiro, abaixar. “Falta humildade nas pessoas para se abaixarem um pouco e saltar”, afirma.

Futuro

“As pessoas mudaram o nome de desmanche para recicladora, mas eu não ligo. No fundo é um desmanche”, diz sorrindo Rufino. “É que desmanche ficou um nome tão pejorativo que hoje ele soa negativo, por isso as pessoas pararam de usar”.

Mas a JR Diesel trabalha para mudar essa imagem negativa. Tem mostrado para várias empresas e pessoas interessadas em entrar na área, como é o serviço feito de maneira correta. “Quanto mais empresas no mercado, trabalhando de maneira correta, melhor para nós, pois o setor terá maior qualidade e credibilidade, eliminando por conta próprias as más empresas”, afirmou Rufino.

A Lei do desmanche, na qual Arthur Rufino teve grande participação, usou a experiência da JR, os métodos de trabalho e acabou criando uma forma de fiscalização eficiente e simples. “Qualquer erro, o sistema trava tudo”, explica Arthur Rufino. “Não emite a nota fiscal, não emite recibos e a operação é bloqueada”.

Caminhando pelos corredores de peças da JR Diesel, é possível ver palavras de incentivo. Nenhuma sujeira no chão, tudo muito organizado e limpo. De repente uma placa afirma: se o chão da empresa não estiver limpo, o restante se incomoda.

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