Os caminhoneiros que trocam o dia pela noite

28/09/2018 às 9:50 - Atualizado em 28/09/2018 às 9:50

A lua que inspira os poetas e encanta os apaixonados, também  serve de companhia  para os caminhoneiros  que trocam o dia pela noite

Sob a luz do luar

3h00
Avenida Paulista.

Em uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, a essa hora, poucos são os carros circulando. Mesmo assim, eles precisam tomar cuidado e fazer um pequeno desvio, pois um caminhão está parado na faixa da esquerda.

É um Ford Cargo 2429, com um semiguindaste em sua carroceria. Esse semiguindaste, com um cesto em sua extremidade, é capaz de levar um homem a 33 metros de altura. Mas nesta noite, um experiente eletricista está a “apenas” 18 metros de altura.

“É muito seguro,” garante Anderson Santos. Com 32 anos de idade e nove de caminhoneiro, ele é o responsável pelo caminhão e pela operação do semiguindaste. “É muito simples operar. Posso controlar de dentro do caminhão, ou pelo controle remoto que tem um grande alcance. Posso estar do outro lado da avenida controlando tudo.”


A operação pode ser simples para ele que fez um curso no fabricante do equipamento, mas requer muito cuidado. O semiguindaste pesa 5,5 toneladas e requereu uma adaptação no caminhão. Por isso foi instalado o eixo dianteiro auxiliar. Além disso, o Ford Cargo tem uma tomada de força que é ligada ao equipamento. Para evitar qualquer possibilidade de acidente, também existe uma bomba auxiliar. Assim, mesmo que o motor do caminhão pare, o equipamento continua funcionando.

Quando Santos chega ao local onde será feita a manutenção da parte elétrica, para o caminhão, faz todo um processo de sinalização que inclui a colocação de cones, o acionamento das luzes de advertência instaladas na traseira e na cabine do caminhão e vai auxiliar seu companheiro que entra no cesto para subir até à luminária defeituosa. Ainda existe um ajudante que cuida da parte burocrática e auxilia o eletricista. Tudo muito simples para uma equipe bem treinada.

Mas o grande problema de Anderson Santos não é o trabalho em si. “Gosto muito do que faço e faço bem feito,” diz sem modéstia. “O problema é o ser humano que não tem paciência. Falta bom senso às pessoas. Às vezes estamos trabalhando em um local movimentado como este e passa uns caras xingando, ofendendo a gente por nada. Outras vezes, interditamos uma ciclovia para proteger os próprios ciclistas e eles acabam ficando bravos, falando bobagens. Não percebem que estamos tomando precauções para a segurança deles mesmos.”

E se não bastassem os arruaceiros e egoístas que só pensam em si, Santos ainda enfrenta os “nóias”, dependentes químicos que em determinados locais rodeiam seu caminhão. “Eu preciso ficar com um olho no meu amigo trabalhando e outro no caminhão, cuidando para que os ‘nóias’ não roubem nada ou estraguem alguma coisa por pura maldade, porque a gente não dá dinheiro para eles.”

Ele explica que a avenida Paulista é segura, comparando com outros lugares que ele já esteve. Na Cracolândia chegaram a quebrar o caminhão. “Precisei de escolta militar, mais de 100 policiais para proteger nossa operação,” lembra Santos. “Isso porque na cabeça dos moradores de rua e viciados, nós estávamos instalando câmeras de vídeo e não arrumando as lâmpadas. Por isso a bronca deles com a gente.”

Casado, tem pouco tempo para a esposa. “Quando eu chego em casa, por volta das 5 da manhã, a levo para o serviço. Ela entra cedo porque é chefe de cozinha. Depois volto para dormir. Quando ela chega em casa, já estou me preparando para sair. Entro às 21 horas. Temos tempo para nós nos finais de semana.”
Para ele, a pior coisa da profissão é se acostumar com a noite. Uma vez acostumado, o trabalho corre fácil porque ele gosta do serviço. “A pior coisa é trabalhar em algo que não se gosta de fazer,” afirma Santos. “Nosso trabalho tem que ser à noite porque durante o dia é mais difícil interditar ruas. Trabalhando à noite, eu ganho adicional noturno. Quando um trabalho é em árvores, ou locais com muita interferência, eu utilizo um rádio para me comunicar com o eletricista dentro do cesto. E por precaução, em caso de chuva, tenho a orientação de parar o serviço até o final da chuva.”


Meio chateado, Anderson Santos afirma que ele, assim como os lixeiros, lavadores de rua e todos os que trabalham à noite, precisam ser respeitados e valorizados.

2h00
Rua Augusta.

Não importa a estação do ano, para Paulo Rogério Tomazin, as madrugadas são sempre quentes. Isto porque ele transporta massa asfáltica com seu Volkswagen 31.240, 6×4 para os diversos serviços de recapagem que a prefeitura executa. “Pela lei da balança, nós teríamos que transportar no máximo 12 toneladas, mas a gente sempre passa ‘um pouquinho’,” confessa Tomazin sorrindo. “A caçamba do meu caminhão tem capacidade para 16m3. Eu retiro a massa asfáltica da usina no bairro de Taipas e levo onde for feito o reparo.”
Depois de descarregar um pouco da massa dentro da vibroacabadora, a máquina que faz o remendo, ele fica olhando seus companheiros trabalharem até que seja necessário mais massa. “Essa vibroacabadora é de pequeno porte. Tem uma maior que empurra o caminhão e a massa vai saindo naturalmente,” explica o caminhoneiro. “Ontem estive aqui para levar o entulho retirado na fresagem do asfalto que foi preparado para receber a massa asfáltica hoje.”


Tomazin explica que dentro de São Paulo, com as restrições de circulação, não há condições de fazer esse tipo de serviço durante o dia. “Como não tenho serviço fixo, trabalho de noite, mas se não tiver nenhuma programação à noite, trabalho durante o dia também,” diz o caminhoneiro de 46 anos e 19 de profissão. “Saí por volta das 19 horas de casa, fui para a usina de massa asfáltica, carreguei o caminhão e vim para os locais de reparos. Hoje devo ir embora por volta das 3 horas porque o serviço é pouco. Fizemos um reparo na rua Oscar Freire, agora estamos aqui na Augusta e tem um terceiro reparo a ser feito.”

Ele prefere trabalhar à noite pelo menor movimento, temperatura mais amena e judiar menos do caminhão e do corpo. “O ruim é que quando você pega uma sequência de vários dias com trabalhos noturnos, bate o cansaço, o sono chega e você tem que trabalhar,” diz Tomazin.

Ele não teria vantagem se trabalhasse durante o dia. “Como sou patrão de mim mesmo, ganharia a mesma coisa, pois o valor do serviço é o mesmo para trabalhar de dia ou de noite,” compara Tomazin. “No começo, quando virei autônomo e passei a trabalhar de noite, minha mulher estranhou um pouco. Mas já acostumou. Acostumou tanto que às vezes ela vem comigo para ficar vendo o movimento e a gente trabalhar,” disse sorrindo o caminhoneiro.

3h00
Rua Martins Fontes.

O caminhão chega e entre ele e duas caçambas estão três carros. O caminhoneiro desce do caminhão toca a campainha em uma casa e logo em seguida alguém aparece para liberar a passagem. Esse é apenas um dos obstáculos enfrentado por Gilson da Conceição Santos, caminhoneiro de 36 anos e 16 de profissão, que retira caçambas durante a madrugada com um Volkswagen 24.280.


Ágil no volante, ele manobra com habilidade o caminhão entre um carro e a calçada, desce, e por meio de duas alavancas instaladas na carroceria de seu caminhão, começa a movimentar o guindaste para retirar as caçambas. “Posso carregar até três caçambas cheias ou 12 vazias,” explica ele. “Retiro caçamba em São Paulo inteiro, onde o cliente chamar.”
As caçambas são levadas para um ponto no Km 18 da rodovia Raposo Tavares onde o entulho é separado. O que é reciclável fica no local para ser vendido e o restante vai para outro aterro, mais afastado do centro.

“A maior dificuldade em trabalhar à noite é o sono,” diz Santos sorrindo. “A noite é para dormir e não para trabalhar. Mas o lado bom é que o trânsito é tranquilo.” Ele começa a trabalhar às 23 horas e para às 4 da manhã. Isso porque antes das 5 ele tem que estar fora da zona de restrição de caminhões.

Enquanto manejava os comandos hidráulicos do caminhão para recolher as caçambas, uma garota sai do caminhão. “É a Nicole, minha filha de 11 anos. Ela está de férias e gosta de me acompanhar,” explica o caçambeiro. “Ela aprendeu os macetes da profissão, é muita esperta e gosta do movimento dos carros,” diz com orgulho o pai.

Quanto a ser caminhoneira, Santos não vê problema, “será uma escolha dela”, afirma. A mãe não deve aprovar a ideia, uma vez que o marido chega quando ela está saindo para o trabalho. A filha, ainda muito jovem para dirigir, se seguir a profissão do pai, também irá deixá-la sozinha à noite.

“A mulher fica um pouco brava, mas o que se há de fazer,” pergunta o caminhoneiro. “É minha profissão e tenho que correr para buscar mais caçambas. Abraços,” despede-se saindo com seu caminhão para mais um destino, enquanto sua filha acena na janela.