Uma pinga, dois “rebites” e a conta

09/12/2016 às 9:59 - Atualizado em 09/12/2016 às 10:11

Jorge nasceu caminhoneiro. Filho de caminhoneiro, ainda jovem, foi para a estrada acompanhando o irmão mais velho. Algum tempo depois, o irmão comprou outro caminhão e Jorge ficou sozinho transportando carga rápida do Mercado Municipal, no bairro do Pari, em São Paulo, para o Rio de Janeiro.

Mesmo dando quatro viagens toda semana, Jorge nunca precisou tomar ‘rebite’. Descia para o Rio com legumes e frutas e voltava com as caixas vazias. Enquanto a carga era descarregada, Jorge dormia na boléia. Vez ou outra ia ver a irmã em São Gonçalo, onde nasceu. Quando ela pedia para ele dormir em casa, respondia: “minha casa é a boléia”.

Jorge era um exemplo: não bebia, não fumava. Estava sempre pronto a ajudar um companheiro. Pilotava um Ford F.8, ano 51 com pára-choques e estribos cromados, uma águia no capô, com carroceria São Rafael, uma pintura.

Na via Dutra de pista única dos anos cinqüenta, Jorge abusava da velocidade e não gostava de ver ninguém à sua frente, nem os famosos e velozes ônibus da Viação Cometa, ou do Expresso Brasileiro.

Como ninguém é de ferro, Jorge foi cansando. Um dia se viu cheio de sono, coisa que ele nunca tinha sentido antes. Então, em meio à serração e uma chuva fina que teimava em embaçar o pára-brisa na perigosa madrugada da Dutra, Jorge parou em Resende e foi tomar um café. O frentista, acostumado a ver motorista caindo pelas tabelas, perguntou por que ele não tomava logo o “remédio” para espantar o sono. A princípio Jorge não aceitou, mas um caminhoneiro que estava no restaurante disse que o remédio era o canal para uma viagem legal. Foi a conta. Cansado e cheio de sono, Jorge tomou o primeiro rebite da sua vida e logo ficou novinho em folha. Parecia aquele Jorge de antigamente quando dava quatro viagens por semana, quase sem dormir. Desceu para o Rio como se estivesse nas nuvens e trocando de marchas sem usar a embreagem, cambiando no tempo, feliz da vida. A partir daí, Jorge não andava mais sem o tubo de rebite e sabia bem o mapa da mina. Só abastecia onde encontrava o remédio: “uma pinga, um tubo de rebite e a conta”, pedia.

Jorge passou a fumar e beber pinga enquanto carregavam o caminhão no Pari. Assim, acabou na perigosa mistura de álcool com anfetaminas. Doidão, trocava um pneu na estrada brincando e cantando “Tomara que chova”, música vitoriosa no carnaval, cantada por Emilinha Borba. Chegou a dar cinco viagens, um recorde jamais igualado na pista única da Dutra. Jorge não dormia e tomava rebite com cachaça mesmo quando não estava viajando.

Quando o irmão de Jorge comprou um caminhão maior e mais moderno, a Dutra estava sendo duplicada e Jorge não precisava fazer loucuras para ultrapassar os carros a sua frente. Mas, ele já não era mais o mesmo, andava nervoso e discutindo à toa. Jorge não dormia e ficava bebendo no bar enquanto os ajudantes descarregavam ou carregavam o caminhão. Então, certo dia, doidão de tanto tomar pinga com rebite, Jorge sumiu com o caminhão. O irmão procurou Jorge por todos os lugares onde ele costumava parar na Dutra, inclusive, numa ‘casa da luz vermelha’ em Barra Mansa, onde ele ultimamente gostava de se arranchar. Jorge sumiu na poeira das estradas. Alguns boatos pipocavam aqui e ali. Alguém disse ter visto Jorge, em Uruguaiana, outro jurou ter visto Jorge em Vitória da Conquista. A verdade veio quando a irmã de Jorge contou que ele perdeu o caminhão num jogo de carteado em Rondônia para um garimpeiro de Ariquemes. Jorge estava na casa dela, muito doente, sofria dos rins e do fígado. Quando dormia, delirava: “uma pinga, dois rebites e a conta”. Jorge morreu no dia de São Jorge, seu santo de fé, dizendo que estava dirigindo um caminhão na madrugada de nevoeiro na Dutra.

Homenagem a Henrique Lessa (em memória), ex-caminhoneiro, escritor, poeta e amigo.