Vencemos

28/06/2016 às 9:35 - Atualizado em 28/06/2016 às 9:39

Já escrevi nesta seção que, se o brasileiro é, antes de tudo, um forte, como afirmou Euclides da Cunha, o caminhoneiro é o mais forte de todos os brasileiros.

Este ano foi mais difícil que o de costume. O Brasil praticamente parou. Com isso, as indústrias não produziram. Sem produção, insumos e produtos não circularam.

E com isso o frete despencou. As poucas cargas disponíveis tinham o valor do frete achatado. O caminhoneiro vai, transporta, paga as contas, renegocia dívidas, corta o que puder cortar para manter o nome limpo na praça.

De janeiro a março, elevou o preço do óleo diesel duas vezes. O valor reajustado nas refinarias foi de 10,4% (5,4% em janeiro e 5% em março). Em agosto o litro do óleo diesel subiu 5,8%.

Mas o caminhoneiro continua. Tira forças não se sabe de onde e sorri. Sempre sorrindo. É só cumprimentar um caminhoneiro na estrada e ele abre um enorme sorriso. Esquece os problemas, a dureza do trabalho, e vê no outro motorista, um amigo. Mais um herói das estradas.

Heróis que vez por outra morrem no campo de batalha. Morrem assassinados por ladrões que deveriam estar presos. Outras vezes devido à estradas mal conservadas e ainda por desespero em cumprir horários absurdos para conseguir migalhas. Tombam por ganância e ignorância, vendo em algumas “pílulas mágicas”, ou na cocaína, meios de ganhar mais dinheiro.

Quem consegue escapar das armadilhas das estradas, aprende a curtir os poucos momentos em família. Troca a ida no estádio para jogar bola com o filho. Dispensa noitadas com os amigos para ficar com a esposa. Não assiste televisão porque sempre dorme encostado no ombro da mulher. Esquece a vida real e viaja nos livros de história infantil que conta para a filha, enquanto o cansaço de um dia duro deixa.

Esses profissionais que sabem como é a vida nas estradas, que já viram coisas de deixar o cabelo em pé, não desistem. Não desistem não apenas por eles. Mas por suas famílias, pelo seu país. Sabem que as mãos calejadas e sujas de diesel são as mesmas que constroem essa nação mais assaltadas do que eles.

E quando no meio de uma grande pressão, na solidão da cabine de caminhão em uma noite de frio e chuva, ele pensa em desistir, um simples olhar na foto do filho, da esposa, ou de ambos, revigora seu espírito. Ele engata uma reduzida, pisa mais fundo e cumpre a sua missão.

Por isso, mesmo com todas as dificuldades desse ano, afirmo que os caminhoneiros foram vencedores. Vencemos as estradas, os pedágios, os fretes aviltantes e estamos aqui para um novo ano.

Porque, como a Thayni Librelato, escreveu-me em um cartão, “a vida é um milhão de novos começos. Movidos sempre pelo desafio de viver e fazer o sonho brilhar”.

Sonho que vi em uma reunião de caminhoneiros. Uma mulher se protegendo do sol, embaixo de um grande baú de caminhão. Cheguei mais perto, sentei-me no chão, ao lado dela e perguntei: você está grávida? Ela abriu um lindo sorriso e disse: sim, de oito meses. Espantado, perguntei: mas por que está aqui? Ela com orgulho disse: pra que meu filho aprenda desde cedo o que é ser caminhoneiro. Para que meu filho seja caminhoneiro como o pai.

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